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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

335 À DERIVA

Ainda corro - de e para inúmeras coisas. Noite passada encontrei outro poema daqueles que te sorriem do inferno. Os beats, é preciso detestá-los para entendê-los. Os beats continuam me arrastando. Damien Rice ainda me deixa triste. A primeira cena daquele drama-realista-ruim também. Encontros cataclísmicos. Depois de todos os romances escritos a partir da mesma perspectiva de um mesmo bêbado apostador de cavalos, ainda prefiro os poemas crus. E quando acho que te ver não destrói mais nada, toca post-rock em algum lugar. Mas você não sabe. É preciso não ter medo para erguer um Estado e coragem para derrubá-lo. Eles relatam em artigos de meia página a covardia do desequilibrado que apertou o gatilho na própria testa. E retornam à cafeteria. Requer bravura retirar a única coisa que te possui - e algum tipo de egoísmo em não ficar para assistir. Do extremo superior do Universo em forma de icosaedro alguém vê toda a nossa depressão, prepotência, agonia, o nosso medo, nossos sistemas econômicos, as cartas de amor, de despejo, nossas religiões e documentários científicos. É lúdico. Eu também riria se pudesse observar a miudeza do ser humano. Nos viramos com o que nos deram: um planeta para a miséria. Isso você sabe. Se eu te amo com todos os meus dissabores, por que não sinto coisa alguma? O ônibus surge na esquina e a maioria os destinos me parecem neutros. Acho que quero sempre ir embora. Já vi pessoas demais surtando por não conseguirem sair de si mesmas. Há quem sente o corpo como casa, há quem o odeia como prisão. Olha, auto aversão transforma tudo que você conhece em um campo minado. Nunca fui lunática, continuo lúcida. A desesperança é um privilégio. Eu sei que as rupturas da sua vida jamais se encontrarão com as minhas e que o espaço que você destinou ao meu amor é remoto à máquina de engrenagens enferrujadas. Foi preciso afundar tanto para encontrar esse bote. Te carrego com calma, ou exaustão. Ainda olho pesarosamente para as cicatrizes do último inverno. De repente o quarto do hotel era pequeno e eu quis me mudar para a sua casa e comer no seu prato e me lavar enquanto você lia jornal. Não tocava nenhum MPB em que a letra supre o som. Sobrevivemos de sonoridade. Você também sabe disso. No dia que o chão da cozinha se abriu e nós nos empurramos para limbos distintos eu fechei as janelas e lacrei as saídas de emergência. Só me restava sucumbir. E sucumbi. Não há formato de expressão que narre com coesão como é perecer de saudade. Era sempre a voz errada que me oferecia um trago. Continua sendo. Ainda escrevo impropérios nos azulejos do banheiro. Se percebo qualquer manifestação de benevolência espontânea - ou colo - iminente, ainda corro.

Yasmin Diniz

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